Boletim Nº5, Maio – Agosto de 2015

A IMPRENSA E A POLÍTICA EXTERNA DO GOVERNO ROUSSEFF

Continua baixa a proporção de formadores de opinião que apoiou publicamente a política externa do governo de Dilma Rousseff no segundo quadrimestre do ano, ainda que superior ao do quadrimestre anterior. O percentual dos que o fizeram variou segundo os diferentes veículos.

Nosso termômetro
CEBRAP indica:

%

de artigos favoráveis
à Política Externa.

Confira abaixo a posição frente à política externa de articulistas e editorialistas de diferentes jornais:

  • Favoráveis 7.9%
  • Neutros 42.1%
  • Contrários 50%

por Meilian Higa Lee

Confira a análise do veículo do jornal O Globo

Neste segundo quadrimestre, os artigos de opinião publicados em O Globo em relação à política externa do Brasil tiveram um tom menos crítico quando comparados aos períodos anteriores. Dos 38 artigos, exatamente metade foram contrários a atual política exterior e 16 artigos foram neutros. Nota-se também mudança na composição dos artigos, com apenas 13 editoriais e predominância de artigos assinados. Os principais temas abordados foram: a crise na Venezuela, a visita de Dilma aos Estados Unidos, a questão climática e a atitude em relação ao MERCOSUL. Segundo os articulistas, o Brasil deveria deixar a complacência com o governo de Maduro e utilizar seu peso no MERCOSUL e na UNASUL para manter o compromisso com a manutenção da democracia e dos direitos humanos na região. A presidente e o Itamaraty não teriam demonstrado firme condenação à hostilidade sofrida pelos senadores brasileiros, que tentaram visitar opositores presos em Caracas. Adverte-se que o imobilismo brasileiro em relação à crise venezuelana acarretará consequências negativas para os interesses nacionais. A visita oficial em Washington foi considerada positiva, pois representou o restabelecimento das boas relações com os Estados Unidos, sem contudo, na visão do jornal, trazer mudanças significativas na política externa. Dentre os acordos mais comentados, ressaltam-se o comprometimento com a agenda ambiental e o acordo de salvaguardas tecnológicas. Criticou-se o anúncio feito pela presidente Dilma sobre medidas de combate às mudanças climáticas, descrito como fraco ou visando apenas marketing, bem como, a falta de liderança do Brasil no debate ambiental. Lamentou-se a lacuna na negociação do acordo tecnológico que permitiria levar adiante o programa espacial brasileiro, atualmente paralisado devido a política considerada ideológica, com relação à Ucrânia. O MERCOSUL continua sendo avaliado como fator de isolamento comercial e político do Brasil, a menos que haja a flexibilização das regras aduaneiras, que permitiria o entendimento com a União Europeia e realização de parcerias comerciais bilaterais. Foram aclamadas as iniciativas bilaterais de reaproximação com os Estados Unidos e os acordos de financiamento com a China. Defende-se a liderança do Brasil, como atual presidente do MERCOSUL, para comandar uma reforma no bloco. Em geral, as críticas dirigem-se à preferência, considerada ideológica, dada às relações sul-sul e ao baixo perfil da política externa. Segundo os articulistas, o Itamaraty está passivo e o país permanece apagado no cenário internacional, seja por falta de uma diplomacia presidencial forte e sensível às questões internacionais, seja pela inatividade do país para liderar temas regionais e globais.

  • Favoráveis 22.2%
  • Neutros 25%
  • Contrários 52.8%

por Camila Schipper

Confira a análise do veículo do jornal Estadão

Os artigos de opinião sobre política externa no jornal Estado de São Paulo centraram-se, principalmente, nas relações entre Brasil, China e Venezuela com predomínio dos temas comerciais. Neste 2º quadrimestre, a opinião predominante nos 73 artigos e editoriais foi desfavorável à atuação do país no cenário internacional (39 artigos e editoriais). Além de convergir para a rejeição da diplomacia presidencial de Dilma Rousseff. A maior parte desses artigos e editoriais defende uma mudança na condução da política externa nacional por meio de mudanças nas negociações comerciais, maior atuação nas questões climáticas e fortalecimento da liderança do país na América Latina. As relações entre Brasil e EUA ganharam maior destaque com a visita da Presidente Dilma a Washington . As atenções se voltaram aos acordos entre os países, principalmente comerciais e de cooperação tecnológica. O balanço da visita foi em geral favorável, por fortalecer ao protagonismo do país no cenário internacional. Além disso, a visita do primeiro-ministro chinês ao Brasil também provocou maior debate sobre as relações entre os países. Por um lado, enfatizou-se a perspectiva de contar com investimentos chineses, principalmente na área de infraestrutura. Por outro lado, foram feitas críticas às relações comerciais entre os dois países, vistas como expressão de uma “relação de colônia – metrópole”, já que o Brasil exporta produtos primários e importa bens manufaturados. No âmbito regional, o maior destaque foi a posição do Brasil frente a crise política na Venezuela. Dentre seus 14 artigos e editoriais, 11 defendem a retomada do protagonismo do Brasil na região, por meio de ação mais incisiva na crise do país vizinho. O protagonismo internacional brasileiro foi também defendido no âmbito das questões de mudança climática, por meio da liderança do país em acordos negociados em âmbito multilateral. Neste quadrimestre, mantendo a orientação do período anterior, predomina a defesa das relações bilaterais e plurilaterais, no âmbito de negociações comerciais, de investimentos e de tecnologias. Ressalta-se também a necessidade de protagonismo do país, por meio da alteração da política externa adotada pelo governo atual, considerada ineficaz na defesa dos interesses do país.

  • Favoráveis 33.3%
  • Neutros 47.6%
  • Contrários 19%

por Camila Schipper

Confira a análise do veículo do valor econômico

Os artigos de opinião sobre Política Externa no jornal Valor Econômico caracterizaram-se pela neutralidade, no 2º quadrimestre de 2015. À semelhança do período anterior, grande parte dos editoriais e artigos trata das políticas comerciais e das relações bilaterais e plurilaterais do país. Além disso, a celebração de acordos de investimentos também foi ressaltada, convergindo para a defesa do protagonismo do Brasil no âmbito internacional. O fortalecimento do apoio às relações bilaterais, principalmente em matéria comercial e tecnológica, se deve à visita da Presidente Dilma aos EUA e à vinda do primeiro-ministro chinês ao país. A perspectiva de novos acordos contribuiu para a opinião favorável à Política Externa do Brasil. Já, as críticas dizem respeito à postura do país em relação à crise venezuelana, vista como incapaz de exercer a liderança regional. Dentre os 20 editoriais e artigos do período, 14 são favoráveis à cooperação, principalmente em âmbito plurilateral. Exemplo disso são os acordos de investimentos celebrados pelo Brasil com alguns países africanos (Angola, Malaui, México e Moçambique) e potencialmente com outros. As negociações entre a CELAC e a União Europeia, principalmente em matéria econômica, também convergem para a cooperação. Neste quadrimestre, o jornal Valor Econômico manteve uma opinião neutra quanto à política externa brasileira. Ao defender as relações do Brasil com os EUA, bem como as relações do país com novos parceiros, como países africanos, predomina uma orientação de cooperação e de protagonismo do país.

  • Favoráveis 31.4%
  • Neutros 20%
  • Contrários 48.6%

por Dan Novachi

Confira a análise do veículo do jornal O Globo

Ao longo do segundo quadrimestre de 2015, o jornal Folha de S. Paulo publicou 70 editoriais ou artigos de opinião sobre a atuação internacional do Brasil. Deste total, 33 foram contrários à atual política externa brasileira, 23, favoráveis a ela e 14 foram neutros. Entre os principais temas discutidos no período destacam-se: a visita da presidente Dilma aos Estados Unidos, seus impactos e resultados; as metas para a Conferência de Paris sobre mudança climática; a necessidade da reinserção do país nas cadeias globais de produção e as respostas do Brasil à crise política na Venezuela. As dificuldades econômicas do Brasil foram alvo de fortes críticas por parte dos articulistas e editoriais do jornal. Como parte de um plano de soluções, eles sugerem que o país deva buscar maior inserção comercial internacional, com prioridade para as relações com parceiros tradicionais, como os EUA. O protagonismo internacional – global e regional – também ganhou bastante espaço. No primeiro caso, os articulistas defendem participação mais ativa nas decisões visando à redução das causas e dos efeitos da mudança climática; e no segundo caso, argumentam que o país deve ter ação mais incisiva na promoção de eleições livres na Venezuela. No período, os articulistas e editorialistas se mostraram mais favoráveis ao estreitamento das relações Norte-Sul do que ao intercâmbio Sul-sul. Os pontos de vista expressos no jornal foram mais favoráveis a uma atuação pautada pelo universalismo, em detrimento do regionalismo. Além disso, o bilateralismo foi a opção de negociação mais incentivada, seguida pelo plurilateralismo, em lugar da insistência das autoridades brasileiras em privilegiar o multilateralismo. A diplomacia presidencial foi, em geral, mal avaliada e considerada ineficiente. A maioria dos temas e opiniões veiculados no jornal durante este quadrimestre dá continuidade a debates já presentes no período o anterior. A grande novidade neste quadrimestre, sem dúvida, foi a grande atenção dada à visita da presidente Dilma aos EUA e suas consequências desejáveis para as relações entre os dois países.

Resumo dos assuntos tratados nos artigos

A imprensa de opinião e as grandes linhas de ação internacional do Brasil

Os artigos, editoriais e entrevistas de especialistas, embora muito críticos com relação à condução política exterior, parecem concordar o que tem sido suas grandes linhas de atuação. A abertura para o exterior, que chamamos de globalismo; a busca da diversificação das relações com países situados em diversas partes do mundo, que denominamos universalismo; a opção pelo multilateralismo’a presença ativa na região por meio do MERCOSUL e da UNASUL; e relações mais próximas com os Estados Unidos são opções de longo curso da política externa, que contam com apoio significativo entre os principais órgãos de imprensa e seus colaboradores.

Orientações Gerais da Política Externa – Preferências da Imprensa

  • Nacionalismo (1) 0.63%
  • Globalismo (159) 99.38%
  • Regionalismo (11) 6.83%
  • Universalismo (150) 93.17%
  • Unilateralismo (3) 2.04%
  • Multilateralismo (32) 21.33%
  • Unasul – Favorável (4) 66.67%
  • Unsasul – Contrário (2) 33.33%
  • Mercosul – Favorável (6) 30%
  • Mercosul – Contrário (14) 70%
  • EUA – Favorável (62) 98.41%
  • EUA – Contrário (1) 1.59%

Sobre o projeto

Hoje, a imprensa escrita é, a um só tempo, arena e protagonista de um debate informado sobre a política exterior do país. Por esta razão, o CEBRAP decidiu acompanhar o que pensam e dizem sobre o tema os principais órgãos da imprensa escrita, como protagonistas, em seus editoriais, e como meio, nos artigos assinados por seus colaboradores permanentes e eventuais.

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