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28/06/2011

Mapeamento da biotecnologia no Brasil

Projeto de mapeamento da biotecnologia ganha destaque na imprensa

Matéria publicada na Folha de São Paulo, no dia 27.06.2011

Biotecnologia brasileira precisa de dinheiro privado
 

ELIDA OLIVEIRA
DE RIBEIRÃO PRETO
SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO

A biotecnologia no Brasil é representada por 237 empresas, sendo 63% delas criadas na última década. A maior parte (78%) depende de financiamento do governo.

Os dados fazem parte de um mapeamento feito pela BrBiotec (Associação Brasileira de Biotecnologia) e divulgados com exclusividade para a Folha.

A pesquisa foi feita em parceria com a Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos) e o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), e será apresentada nesta semana na Bio Convention, em Washington, EUA.

Nas empresas de biotecnologia, o país se destaca na pesquisa em saúde humana (40% das companhias), saúde animal (14%), reagentes (13%), agricultura (10%) e ambiente e bioenergia (15%) ""os mais "promissores".

Eduardo Giacomazzi, diretor-executivo da BrBiotec, diz que, apesar de incipiente, o setor tem potencial para crescer. "Precisamos incentivar as empresas a olhar para o mercado externo e atrair investimentos", diz.

Isso porque o retorno do investimento em pesquisa é incerto, especialmente nas empresas pequenas e micros, que compõem 80% do setor de biotecnologia no Brasil.

SEM DINHEIRO

O problema é que cerca de 20% das empresas de biotecnologia do país trabalham sem gerar receita porque estão em fase de desenvolvimento do produto ""o que pode levar em média dez anos.

Com isso, poucas conseguem sair das chamadas incubadoras de empresas e não sobrevivem no mercado. "Há recursos para a fase inicial de pesquisa. Mas falta para investir nos testes dos produtos e para sair das incubadoras", diz José Maria Silveira, economista da Unicamp e estudioso da área.

De acordo com ele, os fundos setoriais têm um papel importante para colocar dinheiro nos polos tecnológicos e nas incubadoras. Os 16 fundos que existem hoje são mantidos com recursos federais pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).

"Parte das empresas de biotecnologia não sobrevive porque é comprada por empresas maiores", explica a bióloga Marie-Anne Sluys, especialista no assunto.

Esse foi o caso da Alellyx, empresa muito atuante no genoma da xylella fastidiosa (o "amarelinho" dos laranjais). Ela foi comprada pela Monsanto em 2008.

Um dos criadores da Alellyx, o biólogo Fernando Reinach, hoje trabalha no desenvolvimento de um fundo que visa justamente investir em empresas de base tecnológica para gerar inovação.

Segundo Giacomazzi, o setor, apesar de movimentar US$ 27 trilhões no mundo, ainda atrai pouco investimento estrangeiro ao Brasil.

A Invent Biotecnologia, empresa do setor de fármacos, de Ribeirão Preto, conhece essa realidade.

"Seriam necessários de R$ 5 a R$ 6 milhões para escalonar [aumentar] a empresa, mas os recursos públicos chegam no máximo a R$ 3 milhões", diz Sandro Soares, diretor da Invent

FONTE Folha de São Paulo

Governo oferece recursos para estudar mercado de biotecnologia

O modelo de incubadoras de empresas de base tecnológica, como as de biotecnologia, é importante para que essas empresas se estabeleçam no mercado, diz Giacomazzi.

Essas incubadoras ""muitas ligadas a universidades"" aproveitam a produção dos pesquisadores em formação.

É o caso da Prospecta, incubadora ligada à faculdade de ciências agronômicas da Unesp em Botucatu.

Atualmente, há 18 empresas residentes, segundo o gerente da incubadora, Antonio Vicente da Silva. Elas desenvolvem pesquisas nas áreas de agronegócio, meio ambiente e biotecnologia.

A Multigene, por exemplo, desenvolve tecnologia para fazer o diagnóstico molecular do DNA e, assim, tratar individualmente um doente grave, dosando exatamente a quantidade de remédio.

De acordo com Silva, os pesquisadores dominam os produtos, mas têm dificuldade em conhecer o mercado.

As empresas têm financiamento de instituições públicas voltadas à pesquisa, como da própria Finep.

Recentemente, o governo tem pensado também na inserção dessas empresas no mercado pós-incubação. Desde 2007, a Finep tem um edital voltado para isso.

São R$ 120 mil para cada empresa contemplada. O edital prevê, por exemplo, que 25% do recurso deve ser destinado para o marketing da empresa estudar o mercado.

"Sem incentivos, a pesquisa pode se tornar obsoleta", diz Silva

FONTE Folha de São Paulo

27/06/2011

Entrevista concedida ao jornal O Estado de São Paulo

Em entrevista concedida ao Jornal O Estado de S. Paulo, o pesquisador do Cebrap e professor da UFABC Arilson Favareto usou dados do novo Censo para avaliar as medidas do novo Programa do Governo Federal para o combate à pobreza extrema, o Programa Brasil Sem Miséria.

Entre outras coisas, o pesquisador destacou que cada vez mais governos e pesquisadores evitam definir pobreza tendo por base somente a renda monetária, como faz o Programa. Avaliou também como as novas dinâmicas demográficas e econômicas dificultam que as estratégias pensadas como "porta de saída" do programa tenham êxito.

Isadora Peron, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Em entrevista ao Estado, o pesquisador Arilson Favareto, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), faz um alerta sobre os últimos dados do Censo: o número de miseráveis no Brasil pode ser muito maior do que os 16,2 milhões que vão ser contemplados pelo programa Brasil Sem Miséria, recém-lançado pelo governo federal.

Abaixo, leia a íntegra da entrevista.

O público alvo do programa Brasil Sem Miséria é formado por famílias com renda mensal de até R$ 70 por pessoa. A partir desse critério, delimitou-se que 16,2 milhões de pessoas vivem na miséria no Brasil. Esse número pode ser maior?
No mundo inteiro hoje existe uma tendência, tanto entre pesquisadores como entre os planejadores de políticas públicas, que usar exclusivamente a renda como critério para definir a pobreza pode levar a enormes distorções. Cada vez mais as pessoas têm considerado que pobreza não é algo que se define pela quantidade de dinheiro que uma pessoa ou uma família tem no bolso, mas, sobretudo, pobreza é algo que se define como privação de capacidades. E no mundo moderno ter dinheiro é só uma das capacidades necessárias para poder participar da vida social e econômica de uma comunidade. Além de ter um mínimo de renda, é necessário, pelo menos, ter algum nível de instrução, saber ler, saber escrever, além de ter condições para viver uma vida minimamente longa e saudável. Pelo menos esses outros dois critérios precisariam ser agregados ao da renda, não adianta nada a pessoa ter R$ 70 no bolso, mas ser analfabeta, morar na rua, isso também é uma situação de pobreza extrema. Se o Brasil adotasse critérios multidimensionais para a definição da pobreza, certamente o número não seria 16 milhões, seria significativamente maior. Além disso, o critério é único para o Brasil inteiro, e você ter R$ 70 na região metropolitana de São Paulo é uma coisa, você ter R$ 70 num povoado pequeno da Amazônia é outra bem diferente.

Os dados do Censo de 2010 mostraram que hoje a pobreza é cada vez menos rural e mais urbana. Por que isso acontece?
Até os anos 1990 no Brasil, você teve as cidades como principal polo de geração de empregos, a partir de então, por conta da modernização tecnológica, começa a haver um desemprego muito forte na cidade. De outro lado, existe uma série de programas governamentais, como o Bolsa Família, o Pronaf, que foram massificados nas regiões rurais. O que aconteceu foi o seguinte: de um lado, as condições de vida nas regiões interioranas melhoraram e, de outro lado, as condições de vida nos grandes centros urbanos pioraram. Mas a renda per capta das pessoas que vivem na zona urbana ainda é maior, porque são nas cidades que se concentram as oportunidades de trabalho e de emprego e também as atividades econômicas de maior valor agregado, que exigem mais escolaridade. E isso faz com que a massa de riqueza seja maior na cidade do que no campo.

Apesar de haver mais miseráveis nas cidades, as políticas do Brasil Sem Miséria parecem mais voltadas para o campo. Isso é um problema?
É, com certeza. Mas não é o único. A maneira como o programa define regiões rurais e urbanas é um outro problema grave. Isso cria uma separação artificial do público alvo do programa que não corresponde à realidade. Porque ele define como rural famílias que têm toda a vida ligada às pequenas cidades, mas porque moram num sítio, são consideradas da zona rural, ou, na situação inversa, define como urbana famílias que têm toda a sua vida ligada à atividade agrícola, mas moram na cidade. Então esse é um problema sério do ponto de vista do planejamento. Na vida das pessoas, essa dicotomia está superada. Há pessoas que moram no rural e trabalham no urbana e vice-versa, então não faz sentido você separar essas duas coisas como se as atividades tida como urbanas - comércio, serviço, indústria, tudo aquilo que não é agricultura - fosse uma coisa que só acontece em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte. Não, nós estamos no século 21, isso mudou. Então quando você diz: aqui para vocês da zona rural, eu vou dar sementes, você simplesmente está ignorando aquilo que é o movimento mais pujante dessas regiões interioranas. O problema hoje é esse: que se associa as regiões interioranas do Brasil à agricultura, e elas deixaram de ser isso há muito tempo. E pior: a agricultura não tem a capacidade de dinamizar a vida dessas regiões interioranas, então desse ponto de vista, o erro é muito grande.

Existem outros obstáculos dessa ordem?
Sim. O projeto é apresentado sem uma boa avaliação das iniciativas anteriores. No primeiro mandato do governo Lula foi lançado o programa Fome Zero, qual a avaliação do Fome Zero? Ninguém sabe. No começo do segundo mandato do governo, foi lançado o Territórios da Cidadania. Qual a avaliação desse programa? Ninguém sabe. Então, o que se esperaria, é que um terceiro programa que vai mais ou menos na mesma linha, ou seja, tenta enfrentar problemas senão iguais, similares, que ele se baseasse nos erros e acertos dos programas anteriores e isso não acontece. Portanto a gente fica um pouco sem referência para saber se as medidas estão corretas ou não. Outro problema é a maneira como se pensa a famosa porta de saída, isto é, os caminhos para as pessoas saírem da miséria. À medida que o programa tem determinadas ações voltadas para a pobreza rural e outras voltadas para a pobreza urbana, ele deixa de dialogar com uma das principais mudanças demográficas contemporânea, que é essa maior interpenetração entre as áreas rurais e as pequenas cidades no interior. Para traduzir um pouco isso: a participação das atividades agrícolas é cada vez menor tanto na ocupação do trabalho das famílias como na renda, essa é uma tendência clara, tanto internacional quanto para o Brasil. E o que o programa faz? O programa diz: para quem está na pobreza rural, atividades agrícolas. E isso é um erro, porque são exatamente as atividades que estão perdendo participação na formação da renda e na ocupação do trabalho. Isso significa que essas não são atividades atrativas, elas estão perdendo a atratividade se comparadas com atividades do setor secundário e terciário, das pequenas indústrias, do comércio e serviços. A posição que seria mais eficiente, e que o programa deveria fazer, é ter uma estratégia para as áreas metropolitanas, que é onde gradativamente vai se concentrando, agora, a pobreza, e ter um outro tipo de política, não para aquilo que eles estão chamando de pobreza rural, mas para pobreza naquilo que eu chamaria de regiões interioranas, e aí o principal foco, talvez não fosse nem a agricultura, mas, sim, justamente, a criação de um conjunto de oportunidades não agrícolas nessas regiões interioranas, justamente para poder diversificar a fonte de renda das famílias. Por exemplo: é difícil imaginar que numa região muito pobre, você distribuindo sementes, isso vai tirar essas famílias da pobreza. A maneira como está desenhada a chamada porta de saída simplesmente ignora as principais tendências socioeconômicas que marcam o Brasil do século 21. É como se estivessem pensando a porta de saída para o último quarto do século 20, mas não para o começo do século 21.

O agronegócio, então, não seria o caminho para acabar com a pobreza rural.
Certamente não, porque a agricultura é cada vez mais poupadora de trabalho, isto é, você produz cada vez mais empregando menos gente. Na cultura da cana, que é muito forte aqui em São Paulo, você precisa de pelo menos 100 hectares para empregar 1 pessoa. Na soja, que é um dos principais produtos da nossa pauta de exportação, esse número vai, mais ou menos, para 200 hectares para empregar 1 pessoa. Então a agricultura certamente é importante para o Brasil e para o mundo porque a gente precisa da produção de grãos e alimentos, mas do ponto de vista do desenvolvimento, a agricultura gera riquezas, mas ela não contribui para o combate a pobreza e não contribui para a diminuição da desigualdade.

Que outras conclusões podem ser tiradas analisando os dados do Censo que já foram disponibilizados?
A gente ainda tem um número de pessoas adultas analfabetas relativamente grande. E esse é um número que deve ser levado em conta quando se está pensando em situação de pobreza extrema. Além disso, podemos notar o estancamento do crescimento das metrópoles e o maior dinamismo das chamadas cidades médias, que podem ser de dois tipos: algumas na periferias das metrópoles, portanto é quase um transbordamento da metropolização e outras, e aí está a novidade, em regiões interioranas do Brasil. Isso representa uma oportunidade para a dinamização econômica dessas regiões, que precisa ser melhor reconhecida e mais bem aproveitada pelos planejadores de políticas públicas. Essa é uma novidade na história demográfica do Brasil e abre enormes possibilidades.

Qual seria o papel dessas cidades médias nessa nova conjuntura?
Há uma tendência de que essas cidades possam funcionar como polos ou enclaves. Os polos irradiam benefícios para o seu entorno. Com o enclave, acontece o contrário, é uma espécie de ilha de prosperidade, num mar de precariedade. Qual o papel essas cidades médias vão adquirir depende das políticas públicas, das políticas de desenvolvimento regional, do tipo de atividade econômica que pode favorecer essas regiões, da maneira como o poder público pode favorecer a conectividade das pequenas cidades do entorno a esses grandes centros. Se houver um conjunto de ações complementares, essas cidades podem de fato representar polos, como se elas fossem nós numa teia densa de municípios. Se essas ações não ocorrerem, e hoje elas não estão ocorrendo, essas cidades não vão cumprir esse papel de polos, elas vão ser enclaves. Para que isso não aconteça, deveria haver um planejamento visando aumentar a conectividade dos pequenos municípios das regiões interioranas com esses polos, de maneira a romper esse isolamento e também uma política agressiva para diversificar as atividades econômicas e favorecer a complementaridade entre essas pequenas cidades e os núcleos urbanos de maior porte

FONTE Jornal Estado de São Paulo.

24/06/2011

Seminário e debate sobre os impactos da China para o desenvolvimento nacional

A Ascensão Chinesa e os dilemas para a Indústria Brasileira: Pressão Competitiva, Reestruturação Econômica e Emprego

A Ascensão Chinesa e os dilemas para a Indústria Brasileira: Pressão Competitiva, Reestruturação Econômica e Emprego
Seminário com Prof. Rhys Jenkins (University of East Anglia) e Prof. Alexandre de Freitas Barbosa (IEB-USP) e debate sobre os impactos da China para o desenvolvimento nacional com representantes do governo, do setor privado e da sociedade civil.

Seminário: A Ascensão Chinesa e os dilemas para a Indústria Brasileira
Prof. Rhys Jenkins (University of East Anglia) e Prof. Alexandre de Freitas Barbosa (IEB-USP).
29 de junho, quarta-feira, das 9h ás 18h
Auditório CEBRAP

Clique aqui para baixar a programação.

22/06/2011

Blurring the Boundaries: Citizen Action Across States and Societies

Saiba mais sobre a publicação lançada recentemente pelo Citizenship DRC.

 

O Citizenship DRC lançou recentemente a publicação "Blurring the Boundaries: Citizen Action Across States and Societies", que apresenta suas principais pesquisas realizadas nos últimos anos. O CEBRAP participou ativamente desse centro que, ao longo dos últimos dez anos, desenvolveu pesquisas em diversos países do chamado “global south”. O documento, além de apresentar as atividades do Citizenship DRC, traz discussões teóricas, estudos de caso e policy recomendations produzidos pelos pesquisadores ao longo do projeto. O Citizenship Development Research Centre está sediado no Institute of Development Studies - IDS (UK).

20/06/2011

Marcos Nobre: "Temer, hoje, é o líder da oposição." Revista Época

O filósofo fala sobre a "peemedebização" da política e o papel do vice.

ÉPOCA – O que é a “tática de queda de braço” da presidente Dilma Rousseff?
Marcos Nobre – Uma das dificuldades da Dilma é estabelecer sua imagem. Então ela encontrou o lugar dela nesse confronto constante com o sistema político. É como se ela fosse uma representante da moralização, do republicanismo, que combate o sistema. É como se ela não fosse política. No entanto, ela é sustentada justamente por essa mesma base.

ÉPOCA – Uma hora pode perder, não?
Nobre – A tática consiste em saber escolher as brigas que vai perder, mas tirar proveito de todas. Aí, mesmo quando ela perde, é uma vitória moral: “Perdi, mas estava certa, do lado certo”. Foi o caso do Código Florestal. Também é preciso distinguir quedas de braço que dizem respeito ao que é fundamental para o governo Dilma e ao que é, digamos, não tão fundamental. No salário mínimo ela não admitia perder, pois colocaria em risco esse pacto criado pelo Lula, que é o crescimento em torno de 4% e inflação controlada.

ÉPOCA – Ela é neófita em cargo eletivo. Isso ajuda na confecção dessa imagem?
Nobre
 – Exatamente. O crédito dela é por ser neófita. Não tem passado fora do governo Lula ou no Parlamento que atrapalhe essa posição da moralizadora do circo.

ÉPOCA – Há certo encantamento da classe média tradicional com Dilma. Isso coloca em risco a simpatia das classes C, D e E com o PT?
Nobre
 – Não. É agregação. É a mais. E se deve a essa política de queda de braço.

ÉPOCA – Quem usava o discurso da moralização era a oposição. Se Dilma assumir isso, o que resta para a oposição?
Nobre
 – Nada. A oposição só pode fazer o seguinte: ficar sentada esperando que algo dê errado para ver o poder cair em seu colo. Da maneira como está organizado o sistema, isso que chamo de peemedebismo de todo o sistema político, não há oposição. A oposição no Brasil existiu enquanto o PT estava na oposição. O PT virou governo e acabou a oposição. Repare: as duas primeiras pessoas que saíram em defesa do ministro Antonio Palocci foram Aécio Neves e José Serra. É inacreditável. Isso é expressão do peemedebismo. Há um sistema político e um Estado feudalizado. Grupos de interesse pegam determinada posição e se organizam de tal maneira que, quando você vai fazer alguma política que lhes digam respeito, tem de consultá-los, pois eles têm poder de veto. Lula só contornava esses vetos.

ÉPOCA – Explique melhor essa posição de Aécio e de Serra.
Nobre
 – O que quero dizer é que não há diferença entre eles e o sistema. A Dilma mostra que há uma diferença entre ela e o sistema. Eles não. Fazem parte desse sistema. A única coisa que podem dizer é: “Olha, nós seremos síndicos melhores”. Mas síndicos da mesma coisa. Não é para mudar nada.

ÉPOCA – Serra está mais agressivo, não?
Nobre
 – O Serra não fez uma campanha de oposição. O que ele disse foi: “Vou continuar tudo o que o Lula fez, Lula estava correto, só que vou fazer melhor que a Dilma”. Aí depois ele começou a pegar nas questões de valor, religião, aborto. Em nenhum momento fez oposição digna do nome. Ele virou de oposição depois que perdeu. Mas agora é porque está isolado. É tática para tentar reconquistar liderança no PSDB. Só que agora ele não conta mais. Essa radicalização dele é desespero.

ÉPOCA – O PMDB parece desorganizado. Não é um mistério? Como consegue ser grande?
Nobre
 – Não acho. Há um grande acordo que compõe o peemedebismo. Funciona assim: é um partido ônibus; todos que pagam passagem podem entrar. Se você conseguir entrar e se organizar como grupo de pressão, ganha duas coisas: será consultado sobre tudo o que diz respeito a seu interesse e terá poder de veto no tema. Não é nada desorganizado. Tem as repartições regionais, a nacional, sempre com esse pacto básico. Isso, no limite, leva à paralisia. Quando juntou os dois, PMDB e Brasil, deu paralisia. Foi o governo Sarney. É por isso que o PMDB nunca tem candidato à Presidência, esse grande mistério da política. Se o PMDB for síndico, paralisa tudo. E digo mais: todos os outros partidos são assim. O PSB é assim. Kassab? A mesma coisa.

ÉPOCA – O PSDB é a mesma coisa?
Nobre
 – É quase a mesma coisa. O único partido, de fato, que não é peemedebizado é o PT. O PSDB, com Aécio, é peemedebizado.

ÉPOCA – Por que com Aécio?
Nobre
 – O Aécio é o representante disso. Perceba: o PMDB nunca tem um discurso claro sobre coisa alguma. São sempre genéricos, sempre a favor do amor, do progresso. E o Aécio é esse cara. É o sujeito que não tem nada a dizer, não tem proposta, nenhum discurso, nada. É aquele cara que abraça todos os prefeitos. Que acomoda todos os interesses. Olha o que ele fez em Minas Gerais.

ÉPOCA – Então, pelo que o senhor diz, não há oposição real alguma no país?
Nobre
 – Tem. Quando o sistema está peemedebizado, como está, a oposição migra para dentro do governo. Então qual é o líder da oposição hoje? É o Michel Temer, claro. Temer, hoje, é o líder da oposição. O que ele faz? Vem para São Paulo e faz um ato junto com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), na inauguração da Ponte Orestes Quércia. Depois acena para o DEM. O que ele quer com isso? Está dizendo assim: “Posso fazer aliança com a oposição em qualquer outro lugar”. E essa candidatura do Gabriel Chalita em São Paulo? O que ele quer? Está tentando levantar o cacife. 

 

Fonte: Revista Época Publicado em 19/08/2011

13/06/2011

Mudanças recentes na condução da política econômica brasileira

Seminário com Fernando Sampaio (LCA Consultoria)

Convidamos todos para o seminário “Mudanças recentes na condução da política econômica brasileira”, com Fernando Sampaio (LCA Consultoria).

O seminário será no dia 17 de junho, sexta-feira, às 16h, no auditório do Cebrap.

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