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28/09/2012

A desvantagem de quem se recandidata, por Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Estudo de pesquisadores do Cebrap mostra que quanto menor e mais pobre a cidade, mais difícil é a reeleição.

Quanto menor e mais pobre a cidade, mais difícil é a reeleição


Marcio Lacerda (PSB), Eduardo Paes (PMDB) e José Fortunatti (PDT) são, nesta ordem, os prefeitos de capital melhor avaliados do país (Datafolha, 28/08). As pesquisas indicam que os prefeitos do Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre lideram com folga a disputa eleitoral e têm grandes chances de reeleição.

Deste minúsculo universo não é possível tirar a conclusão de que prefeitos candidatos à reeleição sempre levam a melhor. A boa avaliação de suas gestões pode estar relacionada com sua vantagem eleitoral mas até esta inferência tem que ser matizada. O quarto prefeito de capital melhor avaliado pelo Datafolha, Luciano Ducci (PSB), cuja nota é apenas 0,3 pontos abaixo daquela recebida por Fortunatti está atrás de Ratinho Jr (PSC) na disputa por Curitiba.

O foco nas capitais e grandes municípios tem levado a conclusões precipitadas sobre o instituto da reeleição, principalmente quando a disputa em jogo é a municipal. A opinião ligeira que trata o Brasil como um grande curral de votos vê nas disputas locais o locus por excelência do mandonismo secular que, amparado no uso da máquina, só teria ganho força com a reeleição.

Artigo publicado no mais recente número da Novos Estudos/Cebrap dos pesquisadores Thomas Brambor e Ricardo Ceneviva jogam por terra a tese de que o candidato à reeleição parte em vantagem. Estudos anteriores baseavam-se nas capitais e cidades com segundo turno. Nesse universo, a taxa de reeleição ronda os 70%.
 
Íntegra para assinantes do Valor
28/09/2012

A desvantagem de quem se recandidata, por Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Estudo de pesquisadores do Cebrap mostra que quanto menor e mais pobre a cidade, mais difícil é a reeleição.

Quanto menor e mais pobre a cidade, mais difícil é a reeleição


Marcio Lacerda (PSB), Eduardo Paes (PMDB) e José Fortunatti (PDT) são, nesta ordem, os prefeitos de capital melhor avaliados do país (Datafolha, 28/08). As pesquisas indicam que os prefeitos do Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre lideram com folga a disputa eleitoral e têm grandes chances de reeleição.

Deste minúsculo universo não é possível tirar a conclusão de que prefeitos candidatos à reeleição sempre levam a melhor. A boa avaliação de suas gestões pode estar relacionada com sua vantagem eleitoral mas até esta inferência tem que ser matizada. O quarto prefeito de capital melhor avaliado pelo Datafolha, Luciano Ducci (PSB), cuja nota é apenas 0,3 pontos abaixo daquela recebida por Fortunatti está atrás de Ratinho Jr (PSC) na disputa por Curitiba.

O foco nas capitais e grandes municípios tem levado a conclusões precipitadas sobre o instituto da reeleição, principalmente quando a disputa em jogo é a municipal. A opinião ligeira que trata o Brasil como um grande curral de votos vê nas disputas locais o locus por excelência do mandonismo secular que, amparado no uso da máquina, só teria ganho força com a reeleição.

Artigo publicado no mais recente número da Novos Estudos/Cebrap dos pesquisadores Thomas Brambor e Ricardo Ceneviva jogam por terra a tese de que o candidato à reeleição parte em vantagem. Estudos anteriores baseavam-se nas capitais e cidades com segundo turno. Nesse universo, a taxa de reeleição ronda os 70%.
 
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26/09/2012

Juristas vinculados à sociedade civil é a sugestão, em livro, de pesquisadores de Direito do Cebrap

Em contraponto à dualidade entre o jurista “erudito” versus o “pragmático”, pesquisadores do Cebrap propõem o jurista vinculado à sociedade civil e aos debates na esfera pública. José Rodrigo Rodriguez, Flávia P. Püschel e Marta R. de Assis Machado são os autores de `Dogmática é conflito: uma visão crítica da racionalidade jurídica´.

Os textos discutem a dogmática em seu aspecto operativo, mas também seu papel na legitimação do direito.  O livro foi lançado nesta segunda-feira, dia 24, em São Paulo.

Contraponto à dualidade

Há duas imagens de jurista circulando no Brasil de hoje, argumentam os autores. De um lado, o direito e os juristas no Brasil são relacionados à tradição e ao bacharelismo. Nesta visão, ser jurista significa pensar de forma erudita a partir de conhecimentos que remontam ao direito romano e falar de forma retórica e rebuscada.

De outro lado, temos a imagem do jurista técnico e pragmático, que se coloca a serviço da modernização do país e de seus negócios sob a liderança dos economistas. Seu papel é criar soluções que permitem o avanço da modernização compreendida como crescimento econômico e transformação no parque produtivo.

"As reflexões expostas no livro caminham em direção alternativa a essas duas.",  indica José Rodrigo Rodrigues, coordenador do Núcleo de Democracia e Direito do Cebrap. "Tratar-se-ia de um jurista ligado à sociedade civil e aos debates na esfera pública, que reflete sobre as demandas sociais para pensar a transformação das instituições de baixo para cima e a partir do conflito. Um jurista que se põe a serviço do dissenso, do debate, ou seja, da democracia.", diz.

Por isso mesmo, as análises contidas no livro não estão obcecadas pela tradição e não identificam modernização e desenvolvimento econômico. Elas pretendem debater as estruturas institucionais em função dos conflitos, mais especificamente, o papel do Poder Judiciário e do pensamento jurídico com inspiração na tradição da teoria crítica, em especial, em Franz L. Neumann, Klaus Günther e Jürgen Habermas.

Daí o título do livro, cuja formulação é contraditória, ressalva Rodriguez. "Por definição, tudo o que é que é dogmático é imposto, está fora de discussão, como na teologia. Tradicionalmente no direito, a dogmática se refere às normas jurídicas, os dogmas, que não deveriam ser objeto de disputa.", afirma.

"Ao subverter esta definição de dogmática jurídica, o modo de pensar dos juristas, ao relacioná-la com a ideia de conflito, os autores apontam que a interpretação das normas jurídicas é uma disputa social que precisa de critérios para ser resolvida", aponta Rodriguez. "As normas não são dogmas inquestionáveis, mas o resultado instável de um processo social de interpretação que começa no parlamento, passa pelos juízes e se estende até o cidadão e as organizações que propõem ações na justiça."

Diante das disputas atuais diante do STF e do papel crescente do Poder Judiciário na vida do país, apenas um pensamento jurídico com este perfil será capaz de dar conta dos desafios do presente, afirma.

O livro é dividido em duas partes. A primeira, de teor filosófico, reflete sobre o significado da dogmática jurídica nesta nova chave. A segunda parte discute problemas jurídico concretos, ligados ao campo do direito civil, direito penal e direito do trabalho. O volume faz parte da coleção "Direito, Desenvolvimento e Justiça" editada pela Direito GV e pela Saraiva. Além deste livro, serão lançados outros volumes desta e de outras coleções organizadas pelas duas instituições.

Serviço

Título: Dogmática é conflito: Uma visão crítica da racionalidade jurídica
Editora: Saraiva
Preço sugerido: R$ 52,00
Número de páginas; 252
ISBN: 9788502172500
Onde encontrar:  Cultura, Saraiva e livrarias jurídicas.

Núcleo de Direito e Democracia

O “Núcleo Direito e Democracia” (NDD/CEBRAP) reúne pesquisadores interessados nas conjunções entre temas da moral, do direito e da política.  O grupo de pesquisa, de cunho interdisciplinar,  vem contribuindo ao debate de problemas tão diversos como os da participação política, da situação da pesquisa e do ensino jurídicos no Brasil e da fundamentação do Estado democrático de direito.

Mais informações sobre suas linhas de pesquisa  na página do Núcleo de Democracria e Direito do Cebrap.

19/09/2012

FHC elogia proposta uruguaia de legalização da maconha e diz que tinha receio de defender descriminalização

Para o antropólogo Maurício Fiore, pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), o “principal risco para os consumidores de droga é a violência, o contato com o crime e com a arbitrariedade policial. Esse circuito de proibição não protege as pessoas que consumem a droga ou que virão a consumi-la.”

Guilherme Balza

Do UOL, em São Paulo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou, na noite desta terça-feira (18), que, até pouco tempo, tinha receio em defender abertamente a descriminalização da maconha para não ser estigmatizado.

“Não sou nem de longe especialista em drogas, mas no começo eu tinha receio. Entrar nessa seara, para quem está na vida pública, é perigoso, pela associação maliciosa que se pode fazer, pelo estigma. As pessoas podem dizer ‘olha, ele está defendendo o uso de drogas’. É sempre arriscado”, disse FHC.

As declarações do ex-presidente foram dadas durante o evento de lançamento da rede Pense Livre, no Itaú Cultural, na avenida Paulista, em São Paulo. O ex-presidente elogiou o mandatário uruguaio José Mujica, que recentemente descriminalizou o uso da maconha no país.

“É uma pessoa com uma visão muito generosa do mundo. Um homem que ficou na cadeia, três, quatro anos, e saiu 'à la' Mandela, com generosidade, entendendo os processos do mundo. Tomou uma decisão absolutamente inédita: legalizar a maconha e estatizar a maconha -ele foi até longe demais [em estatizar]”, disse o tucano, arrancando risos da plateia. “Isso não seria possível há pouco tempo.”

No evento, FHC voltou a defender a descriminalização do uso das drogas. “Todo mundo já sabe [que proibir] não dá certo”, disse. O ex-presidente afirmou ainda que lideranças políticas de peso na América Latina têm a mesma posição, mas não podem assumi-la publicamente.

Rede Pense livre

A rede foi criada para impulsionar uma campanha pela descriminalização do uso das drogas e para que o consumo seja tratado como uma questão de saúde pública, e não na esfera criminal. Participam da rede professores universitários, artistas, médicos, cientistas, empresários, jornalistas, ongueiros, entre outros.

Além de defender a descriminalização do consumo de todas as drogas, a rede tem como eixos a regulação do uso medicinal e autocultivo da Cannabis –planta que origina a maconha; o investimento em programas sociais para a juventude em risco; a adoção de penas alternativas para o baixo escalão do tráfico; e o fim das barreiras para a realização de pesquisas científicas com substâncias ilícitas.

Pedro Abramovay, professor de Direito da FGV-RJ (Fundação Getúlio Vargas) e ex-secretário nacional de Justiça, afirmou que a descriminalização das drogas não acarretará no aumento nos gastos com saúde pública. “É um custo que já existe, mas que ninguém parcebe”, disse. “[A droga] é um problema sério demais para ser tratado com a cegueira que tem sido tratado. Temos que olhar para as políticas que funcionam.”

Para a médica Ana Carla Pecego, pesquisadora da Fiocruz, “o usuário é visto como um criminoso, não como alguém que precisa de tratamento”. “Ele tem medo de procurar tratamento”, disse. Segundo ela, a criminalização é um entrave para pesquisas científicas sobre o tratamento dos dependentes.

“Quando se criminaliza a droga, se dificulta a pesquisa científica. É extremamente difícil. É uma burocracia paralisante. Se a gente não tem estudo, não descobre a melhor maneira de tratar os dependentes”, afirmou a pesquisadora.

O antropólogo Maurício Fiore, pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), defende que o “principal risco para os consumidores de droga é a violência, o contato com o crime e com a arbitrariedade policial”. “Esse circuito de proibição não protege as pessoas que consumem a droga ou que virão a consumi-la.”

De acordo com ele, o consumidor de maconha representa 80% dos usuários de drogas em geral. “A descriminalização da maconha tiraria todas as pessoas deste circuito violento.”

Fonte: UOL Notícias

18/09/2012

Seminários da Casa: Amélia Cohn discute Bolsa Família no governo Lula, sexta-feira, dia 21 de setembro, às 11 horas

Roberto Schwarz, Rainer Forst e Ruy Quadros conduzirão outros Seminários da Casa neste segundo semestre abertos ao público.

O Cebrap irá realizar análise e debate do programa Bolsa Família nesta sexta-feira, dia 21, às 11 horas, em seminário conduzido pelo pesquisadora e ex-presidente do Cedec, Amélia Cohn.

Socióloga formada pela Universidade de São Paulo no emblemático ano de 1968, Amélia Cohn é mestre e doutora também pela FFLCH. Lecionou de 1971 a 2009 no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da mesma universidade. É, desde 2008, professora permanente do programa de mestrado em Saúde Coletiva da Unisantos.

Cohn foi diretora de Monitoramento e Avaliação da Secretaria-Executiva do Programa Bolsa Família e autora do livro, "Cartas ao presidente Lula”. Tem como principais linhas de pesquisa, políticas sociais e de saúde brasileira e comparada; pobreza, desigualdade e políticas sociais, perfis de sistemas de proteção social e dimensões pública e privada dos novos perfis das políticas sociais no Brasil e na América Latina.

Serviço:

Quando: sexta-feira, dia 21 de setembro, às 11 horas.

Onde: Auditório do Cebrap, rua Morgado de Mateus, n. 615, Vila Mariana.

Nãohá necessidade de inscrição prévia.

Mapa e mais infomações no site: www.cebrap.org.br

 

Ainda neste segundo semestre:

- O professor de Teoria Política da Universidade de Goethe, em Frankfurt, Rainer Forst, fez seu doutoramento orientado por Jürgen Habermas, e irá debater no Cebrap, o tema Tolerância e Justiça, no dia 3 de outubro, às 14 horas.

Ruy Quadros, professor da Unicamp, irá conduzir debate sobre Inovação Tecnológica, no dia 9 de novembro, às 11 horas.

- O crítico literário Roberto Schwarz, debaterá seu livro “Martinha versus Lucrécia - Ensaios e entrevistas”, no dia 14 de dezembro, às 11 horas.

Mais informações sobre a programação dos Seminários da Casa neste segundo semestre aqui.

16/09/2012

Peter Bell, ex-gestor da Fundação Ford revela pressão da CIA após decisão de conceder verba para a criação do Cebrap

O Cebrap não somente ajudou a manter Fernando Henrique e seus colegas produtivamente engajados no Brasil, como se tornou um centro líder de pesquisa e análise social no Brasil e em toda a América Latina, avalia Peter Bel em entrevista ao Estadão, 16/9.

O norte-americano Peter Bell chegou ao Brasil em setembro de 1964, pouco depois do golpe militar, para assumir o recém-criado escritório da Fundação Ford no Rio. Ficou no cargo até 1969 e permaneceu no programa da fundação para a América Latina até 1973. Hoje, com 72 anos, Bell é pesquisador sênior no Hauser Center for Nonprofit Organizations da Harvard University, nos EUA. Procurado pelo Estado para uma entrevista sobre os 50 anos de atuação da Fundação Ford, que distribuiu mais de US$ 350 milhões em doações no País, Bell revela o encontro que teve com um oficial da CIA após ter comunicado à matriz em Nova York a intenção de conceder verba para a criação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Conta também quando foi recebido com uma bomba em sua primeira visita à Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. "No contexto do período, entendo que alguns brasileiros possam ter desconfiado de mim", diz.

O sr. poderia falar dos objetivos da Fundação Ford ao chegar no Brasil, há 50 anos?

O escritório brasileiro foi estabelecido logo no início das atividades na América Latina. O objetivo principal era conceder recursos para promover o desenvolvimento por meio de apoio a programas voltados ao ensino superior. Naquela época, "desenvolvimento" era entendido sob viés econômico, infraestrutural e científico, e mensurado a partir do aumento da renda per capita. Por isso, as bolsas apoiaram cursos de pós-graduação em ciências, engenharia, administração pública e economia, áreas "seguras" para uma fundação recém-chegada. Sua essência era tecnocrática e apolítica. Recursos para universidades e para instituições como CNPq, Capes e Fundação Getúlio Vargas provaram a sua importância. Nota-se mudança no perfil das doações ao longo dos anos. No início, eram privilegiadas áreas como produção agrícola e controle populacional. Nos anos 1970, migraram-se recursos para órgãos de pesquisa e, mais recentemente, para ONGs.

Como ocorriam essas escolhas, o que motivava as decisões?

Com o tempo, a percepção sobre o termo "desenvolvimento" evoluiu, assim como nossa familiaridade com o Brasil. Mais do que isso, o contexto brasileiro para a concessão de recursos mudou. A fundação focou sua atenção nas ciências agrárias, por acreditar que a agricultura, embora essencial, havia recebido apoio insuficiente. Também tivemos a audácia de apoiar a criação de serviços para saúde reprodutiva e planejamento familiar. Simultaneamente ao meu ingresso na fundação, em setembro de 1964, e no início do regime autoritário, começamos a financiar pesquisa e cursos de pós-graduação em ciências sociais. Fizemos isso porque acreditávamos, assim como nossos colegas brasileiros, que os cientistas sociais poderiam ajudar a explorar e clarificar as dimensões política e social do desenvolvimento. Não demorou muito para descobrir que o apoio às ciências sociais poderia ser tão controverso quanto o dado ao planejamento familiar. Em meio à guerra fria, o governo militar confundiu cientistas sociais com socialistas e limitou sua liberdade. A Fundação percebeu que era insuficiente presumir que nós éramos "apolíticos" ou "tecnocráticos". Como organização transnacional, tínhamos a obrigação de explicitar os valores que regiam nossa concessão de subsídios e que eram essenciais para o progresso das ciências sociais e naturais. Ao mesmo tempo, não poderíamos ser partidários. Nas décadas mais recentes, com o escritório da fundação composto cada vez mais por brasileiros, e, à medida que o País se tornou mais democrático, a fundação engajou-se no apoio a programas para promover direitos humanos e reduzir a pobreza, frequentemente por meio de recursos a ONGs.

Como representante da fundação no início de sua atuação na América Latina, como o senhor avalia os críticos que, principalmente nos anos 1960 e 1970, viam tais instituições como agentes da política externa americana?

No ápice da guerra fria, o governo norte-americano e suas agências de inteligência viam a América Latina e a maior parte do mundo através do prisma do combate ideológico e de poder contra a União Soviética. Nas décadas de 1960 e 1970, os EUA frequentemente viam o Brasil e outros países como "campos de batalha" na Guerra Fria. O que me motivou a trabalhar na Fundação Ford foi que nós, como organização independente, não precisávamos adotar essa mentalidade. No contexto do período, pude entender por que alguns brasileiros podem ter desconfiado de mim. Nunca vou me esquecer de quando fui recebido com uma ensurdecedora explosão na minha primeira visita à Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. Os professores com os quais me encontrava tentaram me garantir que eram fogos de artifício. Um deles depois me disse que era uma bomba detonada por estudantes como um aviso para manter distância.

O apoio da fundação à criação de um centro composto por cientistas sociais expulsos da USP pelo regime militar, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), é emblemático. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse a pesquisadores da FGV que o apoio financeiro dado pelo sr. ajudava pessoas perseguidas a se manterem no País e contou que, na época, era muito dinheiro, mas não lembrava o valor. O senhor recorda?

Eu era o diretor do programa, junto com o Frank Bonilla, assessor do programa na área de ciências sociais, que trabalhou com Fernando Henrique para elaborar a recomendação que o escritório brasileiro fez à Fundação para concessão de uma verba para a criação do centro. Eu não consigo lembrar a quantia exata, mas eu realmente considero-a uma das verbas mais gratificantes e importantes concedidas na minha gestão. O Cebrap não somente ajudou a manter Fernando Henrique e seus colegas produtivamente engajados no Brasil, como se tornou um centro líder de pesquisa e análise social no Brasil e em toda a América Latina. Embora Fernando Henrique não fosse político na época, ele se tornou uma força primordial no restabelecimento da democracia no Brasil. Em julho, ele recebeu o Prêmio Kluge, que é como o Prêmio Nobel para as ciências sociais. Mais de quatro décadas depois do primeiro benefício que concedemos, eu fiquei comovido quando ele me enviou um e-mail dizendo que, na época de maiores dificuldades no Brasil, a fundação tornou possível que ele escrevesse o que escreveu e fizesse o que ele fez.

É verdade que o senhor foi chamado pela embaixada americana para uma conversa após o apoio ao Cebrap?

Pouco depois que enviamos para nossa sede em Nova York a recomendação do escritório brasileiro para a concessão da bolsa para o Cebrap, eu recebi um telefonema de um representante da embaixada americana no Rio. Ele começou me avisando: "Se você sabe o que é bom para a sua carreira, você desistirá de obter a verba para o Cebrap". Eu disse a ele que nós trabalhamos muito na recomendação, revisamos com cuidado a proposta e os planos de Fernando Henrique e seus colegas, e estávamos convencidos de que atendia aos nossos parâmetros. Realmente, nós estávamos entusiasmados com aquela oportunidade. Eu realmente disse, porém, que, se ele tivesse alguma informação que fosse relevante para nossa decisão sobre o apoio, gostaria de ouvi-la. Ele respondeu marcando um encontro para mim no dia seguinte com um oficial da CIA e chegou carregando uma pasta com memorandos e clippings de jornal. Eu examinei o material com ele: cada item simplesmente indicava que Fernando Henrique havia sido visto na presença de um "conhecido esquerdista". Eu disse ao meu visitante que a pasta era tão somente sobre "culpado por associação" e que eu não havia visto nada que invalidasse nossa recomendação aos representantes da fundação. Eles de fato rapidamente aprovaram a doação.

Com a crise financeira, estaria em curso uma mudança de perfil da filantropia norte-americana? Não há dúvida de que as fundações estabelecidas nos EUA sofreram com a recessão dos últimos cinco anos e com a obrigação legal de despender 5% de todas as doações que recebem a cada ano. Mas a chegada das fundações Gates (criada por Bill Gates) e Buffet (do investidor Warren Buffett) e a proliferação de outras fundações sugerem que a filantropia organizada continuará a ser um colaborador vital para o pluralismo dentro dos Estados Unidos e para a inovação e o dinamismo entre as instituições sem fins lucrativos. O número de fundações filantrópicas no Brasil também está crescendo e vai desempenhar uma papel ainda maior no País. Eu esperaria que as fundações pelo mundo trabalhassem mais em parceria e aprendessem umas com as outras. Eu dirijo o comitê de uma fundação na Europa que em breve se reunirá com sua filial no Brasil justamente para promover um intercâmbio.

Disponível na edição impressa de domingo, dia 16/9, e no site do Estadão.

14/09/2012

Seminário interno: Desenvolvimento com ciência, tecnologia e inovação, o caso da biotecnologia no Brasil

Pesquisador Carlos Eduardo Torres mapeia pesquisas nesta sexta-feira, às 12h30

Seminário reservado para os pesquisadores do Cebrap

14/09/2012

Nesta quarta-feira, 19 de setembro, acontece a segunda Oficina de Inteligência Metodológica. Inscrições abertas para pesquisadores do Cebrap

Oficinas retomam a tradição da entidade de se mobilizar para compartilhar as ferramentas metodológicas utilizadas na diversidade de suas pesquisas. Próxima e última oficina da série de três está agendada para outubro.

São três oficinas neste segundo segundo semestre de 2012 e que estão abertas a propostas e colaborações de outros núcleos e grupos de estudo. O objetivo é familiarizar os participantes com instrumentos de pesquisa com os quais não têm tido contato direto.

A primeira oficina, intitulada Novíssimas ferramentas de pesquisa, com foco em análise de redes sociais digitais foi realizada no dia 15 de agosto. Estão abertas as inscrições para as oficinas de setembro e outubro. Confira programação abaixo: 

 

Oficina no dia 19 de setembro:

Experiência de análise de redes na pesquisa das organizações da sociedade civil

Com base das pesquisas desenvolvidas pelo Núcleo de Democracia e Ação Coletiva, a oficina busca discutir algumas formas olhar a realidade social a partir das relações, com o intuito de formalizá-las e sistematizá-las.

Tópicos:

1. O que a análise de redes revela que os outros métodos/ferramentas não conseguem dizer?

2. Todo pesquisador faz perguntas sobre as relações: da questão/pergunta ao dado

3. Sistematização e formalização

4.  Mão na massa: leitura/interpretação do dado relacional

Facilitadores: Adrian Gurza Lavalle, Maira Rodrigues e Thiago Greghi (Núcleo de Democracia e Ação Coletiva)

Data: quarta-feira 19 de setembro de 2012, das 14 às 19 horas.

 

Oficina 3:

Construção de indicadores para a análise comparativa de dinâmicas participativas  - 17/10/2012

Embasada em um estudo comparativo de conselhos de saúde, a oficina pretende contribuir para a discussão sobre a construção de indicadores a partir da análise de processos eminentemente qualitativos.

Tópicos:

1.   O debate teórico e sua apreensão em variáveis mensuráveis

2. A construção de indicadores para diferentes dimensões analíticas

3. Comparando processos sociais: estrutura institucional, pesquisa de opinião com conselheiros, e análise de conteúdo a partir das atas das reuniões.

Facilitadores: Vera Schattan P. Coelho e Alexandre Ferraz (Núcleo de Cidadania e Desenvolvimento)

Data: quarta-feira, 17 de outubro de 2012, das 14 às 19 horas.

 

Oficina já realizada:

Novíssimas ferramenta?s de pesquisa - 15 de agosto

A oficina tem como objetivo discutir a utilização de novas ferramentas de pesquisa e instrumentos de análise a partir das experiências realizadas no âmbito do projeto “Políticas de inclusão e transição no mercado de trabalho – o caso do ProUni”.

Tópicos:

1. Redes sociais (Orkut, Facebook, Linkedin, Twitter) como ferramenta de levantamento de dados, recrutamento e rastreamento de comunidades de indivíduos e organizações;

2. Questionários online: contextos possíveis de aplicação e vantagens/desvantagens de sua utilização;

3. Georeferenciamento: representação geográfica dos fenômenos e espacialização de nossas questões. A passagem dos dados para o mapa.

Facilitadores: Alexandre Abdal e Danilo Torini (Núcleo de Desenvolvimento e Trabalho)

Data: quarta-feira 15/08/2012, das 14 às 19 horas.

Serviço:

Público: pesquisadores e assistentes de pesquisa do Cebrap/Cem

Informações e inscrições pelo email inteligenciametodologica@cebrap.org.br

Dados necessários: Nome do participante e núcleo/grupo ao qual pertence.

 Coordenadores das oficinas: Monika Dowbor (mdowbor@gmail.com) e Danilo Torini (danilotorini@gmail.com)

13/09/2012

Marcos Nobre examina o tema da corrupção no Brasil a partir de enquete e matéria feitas pelo UOL

A palavra corrupção hoje quer dizer muita coisa, não é só desvio de dinheiro público ou abuso de autoridade e é como se resumisse as mazelas do país, analisa o professor de Filosofia da USP e pesquisador do Cebrap, Marcos Nobre, em matéria para o UOL.

Internautas do UOL apontam corrupção como o principal problema das prefeituras do país

 
A corrupção é apontada pelos internautas do UOL como o principal problema das administrações municipais do país. Esse é o resultado parcial da enquete "Avalie sua Cidade", no ar desde o dia 5 de setembro.
 
Na enquete, que abrange os 5.568 municípios do país que elegem prefeitos, a corrupção é apontada como o principal problema em 295 cidades --segundo dados atualizados por volta das 14h30 desta quinta-feira (12). Em segundo lugar aparece o item saúde, problema mais votado pelos internautas de 143 municípios.
 
(...) 
 
De acordo com Marcos Nobre, professor do departamento de filosofia da Unicamp e pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), a palavra corrupção tem hoje um sentido amplo e o fato de a enquete estar hospedada na internet diz muito sobre o resultado.
 
“A internet é uma esfera informal de participação muito importante, um espaço onde as pessoas sentem que têm voz e são ouvidas. O internauta tem a sensação de fazer parte de um sistema político que é surdo à sociedade, um sistema político que não conseguiu se democratizar a ponto de fazer com que as pessoas se sintam representadas”, disse.
 
Para Nobre, essa “surdez” se traduz na palavra corrupção.
 
“A palavra corrupção quer dizer muita coisa, não é só desvio de dinheiro público ou abuso de autoridade. Mensalão virou uma palavra genérica para corrupção. Não acho que o mensalão terá efeito nas eleições deste ano, mas há uma ligação no sentido mais amplo, de se referir a tudo o que está errado no sistema político", disse.
 
"Corrupção adquiriu esses múltiplos sentidos. É como se resumisse as mazelas do país: vira um resumo para um sistema que se fecha, para essa sensação de exclusão política”, completou Nobre.
 
12/09/2012

Entrevista com Sidney Tarrow: Repertórios de ação coletiva e confrontos políticos

Angela Alonso (USP e Cebrap) e André Botelho (UFRJ) entrevistam Sidney Tarrow, professor de sociologia e ciência política na Universidade de Cornell.

Nas duas últimas décadas, os estudos da ação coletiva e dos movimentos sociais vêm passando por transformações significativas nas ciências sociais. Problemas persistentes na teoria social estão sendo revistos e novas questões de ordem empírica, teórica e metodológica vêm sendo levantadas. No Brasil, a dominância das teorias dos novos movimentos sociais, nos anos 1970 e 1980, e de seu desdobramento, a teoria da sociedade civil, desde os anos 1990, começam a ser contrabalançadas pelas teorias norte-americanas da ação coletiva, dos movimentos sociais e do confronto político.

Embora não sejam homogêneas, as teorias norte-americanas, sobretudo a teoria do confronto político, sob liderança de Charles Tilly e Sidney Tarrow, vêm redesenhando os estudos das dinâmicas de mobilização, negociação e confronto das ações coletivas, assim como vêm contribuindo decisivamente para revigorar umas das áreas mais tradicionais das ciências sociais, a sociologia política, forçando inclusive redefinições de algumas das suas categorias aparentemente mais estáveis, caso do conceito de conflito social. Mais ainda, ao conectar história e teoria, estas abordagens têm enfrentado algumas das mais profundas antinomias da teoria social, como a dicotomia “ação”/“estrutura”, apresentando, portanto, significados para as ciências sociais em geral. Ao valorizar, de um lado, a capacidade de agência e a criatividade dos indivíduos em suas mobilizações, mas sem descuidar, de outro, dos constrangimentos históricos e políticos que limitam as oportunidades da ação coletiva, novas perspectivas são criadas para o enfrentamento daquela e de outras dualidades das ciências sociais. Este o significado sociológico mais amplo, por exemplo, do conceito de “repertório confrontacional”, de Charles Tilly, que compreende o conjunto de formas de ação política surgidas em meio a conflitos numa dada época e que a partir de então fica à disposição dos atores sociais.  

Charles Tilly e Sidney Tarrow são, certamente, dois dos mais importantes teóricos desse movimento intenso de renovação da sociologia política, ainda em curso. Nesta entrevista, gentilmente concedida, Sidney Tarrow, Professor Emérito da cátedra Maxwell M. Upson da Universidade de Cornell, aborda estas e outras questões desenvolvidas em seus trabalhos, nos de Charles Tilly e nos que ambos desenvolveram juntos. Sociologia & Antropologia busca, deste modo, somar as iniciativas de divulgação dessa importante vertente sociológica contemporânea ainda pouco explorada no Brasil e na América Latina em geral. E também presta, junto com o Professor Tarrow, a quem agradecemos, sua homenagem ao trabalho pioneiro de Charles Tilly, falecido em 2008. A obra de Tilly é, numa palavra, incontornável para aqueles que estamos desafiados a compreender a dinâmica histórica e as inovações nos protestos e confrontos políticos do passado e no mundo contemporâneo.

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Confira íntegra dessa entrevista no site da revista Sociologia & Antropologia, de junho de 2012, vinculada ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - PPGSA/UFRJ. 

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