BOLETIM Nº 8 – 2019

A IMPRENSA E A POLÍTICA EXTERNA NO GOVERNO BOLSONARO

A proporção de formadores de opinião que apoiou publicamente a política externa do governo Jair Bolsonaro, no primeiro semestre de 2019 foi próxima dos 30%. O percentual dos que o fizeram variou segundo os diferentes veículos.

Nosso termômetro CEBRAP indica:

%

de artigos favoráveis
à Política Externa*
*Frequência média de todos os veículos

%

de artigos favoráveis
à Política Externa**
** Frequência média de todos os veículos, retirando o Gazeta do Povo

Confira abaixo a posição frente à política externa de articulistas e editorialistas de diferentes jornais:

  • Favoráveis 20% 20%
  • Neutros 3% 3%
  • Contrários 77% 77%

por Andyara Ferreira Alves

Confira a análise do veículo do jornal O Globo

No 1º semestre de 2019, mais da metade dos artigos e editoriais analisados do Globo são contrários a política externa do governo Bolsonaro. Foi o jornal com menor proporção de artigos neutros. Dos 90 encontrados, 69 foram contrários e 18 favoráveis. Os assuntos mais tratados foram as mudanças na política externa como um todo (18), e as relações do Brasil com a Venezuela (16) e com os Estados Unidos (13).

As críticas se concentraram na diplomacia presidencial (59) e no Ministro das Relações Exteriores (44). Segundo os autores de artigos e editoriais, as posturas não coadunam com a tradição diplomática brasileira, especialmente a do Ministro das Relações Exteriores.

Em menor número, criticou-se a política da Venezuela (25). O Globo se opôs ao governo Maduro e não se colocou em defesa dos partidos nem das figuras de oposição, como Juan Guaidó.

O Globo e seus colaboradores foram favoráveis a participação em negociações comerciais bilaterais (40), vistas como necessárias para a maior inserção brasileira no mundo, corroborando a visão universalista, globalista e multilateralista do jornal.

  • Favoráveis 30% 30%
  • Neutros 5% 5%
  • Contrários 65% 65%

por Andyara Ferreira Alves

Confira a análise do veículo do jornal Estadão

No 1º semestre de 2019, a política externa brasileira foi tema recorrente no jornal O Estado de S. Paulo (125 artigos e editoriais). Mais da metade dos artigos e editoriais foram contrários à política externa de Bolsonaro, e apenas seis assumiram posição neutra. Os assuntos mais discutidos foram o maior protagonismo do Brasil no mundo (20), e suas relações com a Venezuela (17) e com os Estados Unidos (14).

As críticas concentraram-se na diplomacia presidencial (61) e na atuação do Ministro das Relações Exteriores (48). Criticou-se a inaptidão do presidente em episódios como a participação no Fórum Econômico Mundial e a mudança da embaixada brasileira para Telaviv, em Israel.

Falou-se muito sobre a relação do Brasil com a Venezuela (32), criticando o papel dos governos anteriores que mantiveram contato com Maduro, bem como a posição do governo atual, que cogitou intervenção militar durante a intensificação da crise naquele, nos meses de fevereiro e março.

89 artigos e editoriais foram favoráveis à política externa atual e tratam de assuntos relacionados a negociações bilaterais. Defendeu-se o aprofundamento da relação com Estados Unidos e China.

Em suma, O Estado de S. Paulo mostrou-se favorável  ao globalismo, universalismo e multilateralismo nas relações internacionais brasileiras.

  • Favoráveis 17% 17%
  • Neutros 21% 21%
  • Contrários 63% 63%

por Caique Terenzzo

Confira a análise do veículo do valor econômico

No 1º semestre de 2019, o jornal Valor Econômico publicou 24 artigos e editoriais sobre política externa. A maioria reprovou as práticas de Bolsonaro, e mais articulistas e editorialistas mostram-se neutros do que favoráveis ao governo. Entre os assuntos mais tratados, destacam-se questões comerciais (4), questões ambientais (4), relação com Estados Unidos (3), China (3) e Venezuela (3).

As críticas se concentraram na atuação do Ministro das Relações Exteriores (10). Segundo o jornal, conferir à política externa viés ideológico seria negar a tradição diplomática brasileira, já bem consolidada e com prestígio internacional, e afastaria  desnecessariamente importantes parceiros e oportunidades de comércio, como a China.

Relacionado a isso, criticou-se a ideologização das relações com os  Estados Unidos (8). Defendeu-se que o país mantivesse e aprofundasse suas relações com aquele país, sem viés ideológico, nem ameaça a soberania nacional, como acreditam os articulistas que teria ocorrido  nos episódios da instalação da base americana em Alcântara e na discussão sobre o uso da força para lidar com a crise na Venezuela.

O Jornal defende maior protagonismo internacional do Brasil (6), apoiando os esforços do governo para ampliar a participação brasileira no temas de comércio. Da mesma forma, defendeu o protagonismo, na questão ambiental, opondo-se à retirada do Brasil do Acordo de Paris.

Defendeu-se, também, o aprofundamento das relações com a China (5), como forma de impulsionar o desenvolvimento nacional.

Também foi positivamente percebida a participação brasileira na Organização Mundial do Comércio (5) e o pleito para entrada na OCDE, como forma de  aumentar o peso do país no comércio internacional.

Por fim, articulistas elogiaram os avanços conseguidos pelo governo Bolsonaro no fechamento do acordo de comércio entre Mercosul e a União Europeia.

Como um todo, o Valor Econômico alinhou-se à perspectiva globalista, universalista e multilateralista, com ênfase aos temas ambientais e de comércio.

  • Favoráveis 29% 29%
  • Neutros 24% 24%
  • Contrários 47% 47%

por Caique Terenzzo

Confira a análise do veículo do jornal O Globo

No 1º semestre de 2019, a Folha de S. Paulo publicou 87 artigos e editoriais tratando da política externa brasileira. Pouco menos da metade são contrários à política adotada por Bolsonaro. A proporção dos articulistas e editorialistas que são a favor do governo é próxima daquela dos que são neutros. Os temas mais abordados foram a questão da Venezuela (17) e as relações com os Estados Unidos (13) e China (8).

As críticas se concentraram na atuação do Ministro das Relações Exteriores (24). Articulistas e editorialistas criticaram fortemente seu discurso antiglobalista e em defesa de supostos valores ocidentais, considerando-os descabidos e prejudiciais para a atuação internacional do Brasil.

Também foi muito criticada a forma como o governo tem tratado a aproximação do Brasil com os Estados Unidos (22). Os  editorialistas e articulistas consideraram benéfico  o aprofundamento das relações, mas sem que isso  implicasse na defesa de ideologias, ou na negação da soberania nacional. Nesse sentido, o discurso antiglobalista de Ernesto Araújo, o episódio de Alcântara e a crise na Venezuela foram alvo de críticas por parte dos colaboradores da Folha de S. Paulo.

A diplomacia presidencial foi intensamente reprovada (14). Muitos defenderam a inaptidão e incoerência da atuação do presidente nos fóruns e arenas internacionais, cujos maiores exemplos teria sido atuação durante  a visita à Washington, no Fórum Econômico Mundial, e no episódio da mudança da embaixada brasileira em Israel.

O Jornal e seus colaboradores foram favoráveis (18) a que o Brasil assumisse protagonismo nas tratativas para mitigar a crise venezuelana. Nesse sentido, a participação do vice-presidente no Grupo de Lima foi celebrada, enquanto a possibilidade de intervenção militar na Venezuela foi rechaçada.

Outro tema abordado foi a Relação do Brasil com a China (14). Os articulistas e editorialistas retrataram-na como essencial para impulsionar o desenvolvimento e o comércio brasileiro. Assim, criticaram fortemente o enfoque ideológico do Ministro das Relações Exteriores, que poderia desperdiçar singular oportunidade.

Em resumo, a Folha de S. Paulo sustentou postura globalista, universalista e multilateralista nas relações internacionais brasileiras.

  • Favoráveis 67% 67%
  • Neutros 20% 20%
  • Contrários 13% 13%

por Leonardo Derenze

Confira a análise do veículo do jornal Gazeta do Povo

No 1º semestre de 2019, a Gazeta do Povo publicou 15 artigos e editoriais sobre política externa. Mais da metade são a favor das medidas adotadas pelo governo Bolsonaro, proporção praticamente inversa às opiniões dos outros veículos. Os assuntos mais discutidos foram as relações do Brasil com os Estados Unidos (4), Itamaraty e o Ministro das Relações Exteriores (4), e a crise na Venezuela (3).

As poucas posições contrárias referem-se à abordagem do governo sobre a crise na Venezuela (1), a sua participação em algumas organizações internacionais (2), — Organização das Nações Unidas (ONU) e Organização dos Estados Americanos (OEA) — e ao Regime de Direitos Humanos (1), mais especificamente sobre o debate da Lei de Migração no Brasil.

Os artigos e editoriais favoráveis ao governo se referiram ao protagonismo internacional do Brasil (4), às relações do Brasil com os Estados Unidos (3), e ao Ministério das Relações Exteriores (3). Frequentemente se elogiou a diplomacia presidencial (4), com comentários laudatórios à participação do presidente no Fórum Econômico Mundial, celebrado em Davos.

Sinteticamente, a Gazeta do Povo defendeu o nacionalismo, multilateralismo e não assumiu defesa
do universalismo ou regionalismo.

Resumo dos assuntos tratados nos artigos

A IMPRENSA E AS PRIORIDADES DA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA

Nenhum

  • Mercosul 85% 85%
  • China 81% 81%
  • EUA 56% 56%

 

 

Contrário

  • Mercosul 2% 2%
  • China 2% 2%
  • EUA 13% 13%

 

 

Favorável

  • Mercosul 10% 10%
  • China 13% 13%
  • EUA 23% 23%

 

 

Neutro

  • Mercosul 2% 2%
  • China 9% 9%
  • EUA 9% 9%

A maioria dos artigos não trata de temas considerados prioritários para a política externa do país, com exceção das relações do Brasil com os Estados Unidos, que ocupou pouco menos da metade dos artigos de opinião e editoriais publicados pelos órgãos de imprensa que acompanhamos. De modo geral, os jornais assumiram postura mais favorável que contrária à atuação brasileira em relação à China e ao Mercosul, e foi mais crítica quando se tratou da relação com os Estados Unidos.

Orientações Gerais da Política Externa – Preferências da Imprensa

Os artigos de opinião, editoriais e entrevistas de especialistas, muito críticos com relação à condução política exterior, parecem concordar com, os princípios e valores que orientaram a política exterior do país até a posse do governo Bolsonaro. A abertura para o exterior, que chamamos de globalismo; a busca da diversificação das relações com países situados em diversas partes do mundo, que denominamos universalismo; a opção pelo multilateralismo, a presença ativa na região, e especial a participação no MERCOSUL; e relações mais próximas com os Estados Unidos e China. São  todas opções de longo curso da política externa, que contam com apoio significativo entre os principais órgãos de imprensa e seus colaboradores.

Nacionalismo x Globalismo

  • Nacionalismo 5% 5%
  • Globalismo 72% 72%

A maioria dos artigos e editoriais publicados pelos órgãos de imprensa que acompanhamos assumem orientação globalista, com pouco menos de 80% dos artigos favoráveis ao globalismo e/ou críticos ao nacionalismo.

Unilateralismo x Multilateralismo

  • Unilateralismo 2% 2%
  • Multilateralismo 73% 73%

A maioria dos artigos e editoriais publicados pelos órgãos de imprensa que acompanhamos assumem postura favorável ao multilateralismo nas relações internacionais do Brasil.

Regionalismo x Universalismo

  • Regionalista 4% 4%
  • Universalista 70% 70%

A maioria dos artigos e editoriais publicados pelos órgãos de imprensa que acompanhamos assumem orientação universalista, com 70% dos artigos favoráveis ao universalismo.

Relações Norte-Sul e Sul-Sul

Relação Norte-Sul

  • Contrário 2% 2%
  • Favorável 33% 33%

A maioria dos artigos e editoriais publicados pelos órgãos de imprensa que acompanhamos assumem postura favorável a relações Norte-Sul.

Relação Sul-Sul

  • Contrário 1% 1%
  • Favorável 30% 30%

A maioria dos artigos e editoriais publicados pelos órgãos de imprensa que acompanhamos assumem postura favorável  a relações Sul-Sul.

Sobre o projeto

Hoje, a imprensa escrita é, a um só tempo, arena e protagonista de um debate informado sobre a política exterior do país. Por esta razão, o CEBRAP decidiu acompanhar o que pensam e dizem sobre o tema os principais órgãos da imprensa escrita, como protagonistas, em seus editoriais, e como meio, nos artigos assinados por seus colaboradores permanentes e eventuais.

Leia Também

Hoje teve início, na USP, a primeira edição da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. Na mesa de abertura estiveram presentes as organizadoras do evento, as professoras Maria Hermínia Tavares de Almeida e Marta Rodriguez de Assis Machado; a presidente do Cebrap, Angela Alonso; Raul Machado [Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional]; […]

No quarto episódio da série #CebrapPesquisa, Ronaldo de Almeida fala sobre o comportamento do voto evangélico nas eleições de 2018. Integrante do Núcleo de Etnografias Urbanas e Diretor Científico do Cebrap, o antropólogo é coordenador desse trabalho financiado pelo CNPq e que está em fase de coleta de dados. A série #CebrapPesquisa tem como objetivo […]

Em 2009, o Cebrap – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – completa 40 anos. Para comemorar, a Cosac Naify, em nova parceria com o SESC SP, lança Retrato de grupo, que recupera a história da instituição que ajudou a formar o Brasil moderno. Em 2009, o Cebrap – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento […]

Organizado por Angela Alonso como editora convidada, o numero da JED nclui artigos de pesquisadores de ciências sociais e ciências naturais e visa apresentar uma visão brasileira do assunto ao público estrangeiro. Acaba de sair o número especial sobre a questão ambiental no Brasil, que Angela Alonso organizou como editora convidada para o JED – […]